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16.12.05
a mudez e a nudez
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As palavras são seixos rolando no rio. A palavra. A beleza extrema está nela. Mas é inalcançavel - e quando está ao alcance eis que é ilusório porque de novo continua inalcançável. Evola-se destas minhas palavras acotoveladas um silêncio que é também como o substrato dos olhos. Há uma coisa que me escapa o tempo todo. Quando não escapa, ganho uma certeza: a vida é outra.
Tem um estilo subjacente.
É a mim que caberá impedir-me de dar nome à coisa. O nome é um acréscimo e impede o contato com a coisa. O nome da coisa é um intervalo para a coisa. A vontade do acréscimo é grande - porque a coisa nua é tão tediosa. Falar com as coisas é mudo. Falar com o Deus é o que mais mudo existe. Ainda estou viciada pelo condimento da palavra. E é por isso que a mudez está me doendo como uma destruição. Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes da linguagem, existe como um pensamento que não se pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio. Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenhomuito mais à medida que não consigo designar. E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar, já sabendo que a voz diz pouco. Pois existe a trajectória, e a trajectória não é apenas o modo de ir. A trajectória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prémio.
Às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além da morte. Morrer deve ser uma muda explosão interna. O corpo não aguenta mais ser corpo. E se morrer tiver gosto de comida quando se está com muita fome?
Vou lhe contar um segredo: a vida é mortal. A morte é o impossível e o intangível. De tal forma a morte é apenas futura que há quem não a aguente e se suicide. É como se a vida dissesse o seguinte: e simplesmente não houvesse o seguinte. Só dois pontos à espera.
Um mundo fantástico me rodeia e me é. Ouço o canto doido de um passarinho e esmago borboletas entre os dedos. Sou uma fruta roída por um verme. Uma chusma dissonante de insetos me rodeia, luz de lamparina acesa que sou. Exorbito-me então para ser. Sou em transe. Penetro no ar circundante. Que febre: não consigo parar de viver.
(...)
Eu sou um objecto querido de Deus. E isso me faz nascerem flores no peito. Ele me criou igual ao que escrevi: 'agora sou um objeto querido por Deus' e ele gostou de me ter criado como eu gosto de ter criado a frase. E quanto mais espírito tiver o objeto humano mais Deus se satisfaz.
Lírios brancos encostados à nudez do peito. Lírios que eu ofereço e ao que está doendo em você. Pois nós somos seres carentes. Mesmo porque certas coisas - se não forem dadas - fenecem. Por exemplo - junto ao calor do meu corpo as pétalas dos lírios crestariam. Chamo a brisa leve para a minha futura morte. Terei de morrer senão minhas pétalas crestariam. É por isso que me dou à morte todos os dias. Morro e renasço.
Inclusive eu já morri a morte dos outros. Mas agora morro de embriaguez de vida. E bendigo o calor do corpo vivo que murcha lírios brancos.
O querer, não mais movido pela esperança, aquieta-se e nada anseia.
Meu futuro é a noite escura e eterna. Mas vibrando em elétrons, prótons, nêutrons, mésons - e para mais não sei, porém, que é no perdão que eu me acho.
Eu serei a impalpável substância que nem lembrança de ano anterior substância tem.
Será que no instante de morrer forçarei a vida tentando viver mais do que posso? Quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo - é inconsciente de sua condição ? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? Não, tem de haver. Eu acho que é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas.
Eu me denuncio. denuncio a nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer - e respondo a toda essa infâmia com - exactamente isto que vai agora ficar escrito - e respondo a toda essa infâmia com alegria. Puríssima e levíssima alegria. Não faz sentido? Pois tem de fazer.
(...)
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Clarice Lispector, Auto-retrato: Segunda Colagem
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